Todo mestre um dia, foi APRENDIZ. Todo professor um dia, foi ALUNO.

Por Alcides Uchoa Lima

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Um dia, eu estava em casa arrumando umas gavetas, organizando meus pertences, separando aquilo que não serve mais pra mim ou não tem nenhuma utilidade. Derrepente, me deparei com uma caixa de papelão vazia e surrada. Antes de jogá-la fora, decidi abrir pra ver o que tinha. Quando abri a caixa, me deparei com fotos antigas minha praticando Kung Fu com meu saudoso mestre. Várias fotos, de diversos momentos meu, com o meu mestre e com meus amigos e irmãos de treino. Na hora bateu um saudosismo de um tempo bom que vivi no passado ao lado do meu falecido mestre.

Separei as fotos, limpei e guardei em uma pasta com muito carinho, para posteriormente colocar em um painél na associação onde dou aula. Continuei a organizar a bagunça que estava na minha gaveta. Após o término da limpeza, fui almoçar e ligar a TV para ver o noticiário. Lamentavelmente naquele dia, no noticiário da TV fiquei chocado com uma notícia de denuncia de maus-tratos por parte de um professor de uma determinada arte marcial que literalmente agredia os alunos com a desculpa de que “eles precisavam parar de ser frouxos”. Esse mal exemplo foi filmado escondido através de uma câmera de celular onde esse “mestre” literalmente espancava as crianças violentamente. Isso me deixou muito triste. Como se não bastasse o show de horror em pleno noticiário, assisti uma outra reportagem onde falava do descaso e da desvalorização do professor em sala de aula, na escola, a mercê de agressões físicas, verbais e morais por parte de alguns estudantes com posturas repugnantes não condizentes com um ambiente escolar. Tudo isso me deixou muito triste e reflexivo durante todo o dia. Comecei a perguntar a mim mesmo, qual é o papel do professor? Qual é o papel de um mestre? O que estou fazendo para mudar essa realidade? Será que tenho sido um bom professor? Será que realmente estou pronto para levar adiante o legado do meu falecido mestre?

Vivemos em uma sociedade onde a palavra respeito vem perdendo lugar para a palavra enfrentamento. Diversos pais que não conseguem educar os seus filhos, ensinar valores, estabelecer limites, lares completamente desestruturados por N questões socioculturais. Desde os meus 10 anos de idade tenho contato com a cultura oriental por meio das artes marciais chinesas, sobretudo o Kung Fu. Analisando toda o meu histórico dentro do Kung Fu, digo com veemência que já passei por conflitos, frustrações, decepções e conquistas, mas acima de tudo muito aprendizado construído através do princípio de  Shītú (師徒), a relação entre mestre e aprendiz, entre professor e aluno.

Segundo Shifu Daniel Hu:

“O ideograma Shī(師) vem de Shifu (師父), Mestre Pai, aquele que serve como referência, enquanto que, o ideograma Tú(徒) vem de Túdì (徒第), o aprendiz, o discípulo. Ao juntarmos os dois primeiros ideogramas de cada, formamos o termo Shītú (師徒) que é usado para definir a relação entre Shifu (師父Túdì (徒第), ou seja, a relação mestre/discípulo.

Muito mais do que movimentos e técnicas, essa relação envolve sensibilidade, zelo, respeito, confiança e afetividade, e está relacionada a uma condição fundamental para o aprendizado de um sistema em sua totalidade: a proximidade. Não existe outra maneira a qual propicie a um estudante ou aprendiz o entendimento do seu sistema ou estilo no aspecto mais abrangente do que a proximidade com o pai da sua família Kung fu, pois a distância você pode acompanhá-lo nas evoluções técnicas, mas para ouvir sobre o seu conteúdo essencial você tem que estar próximo.

Se um discípulo não tem proximidade com o seu mestre, como ele poderá ter  proximidade com a essência do seu sistema? Como se desenvolverá o seu aprendizado sem o respaldo de subsídios importantes para a sua evolução?  No Shītú (師徒) estabelece-se a relação verdadeira, onde a convivência com o Shifu (師父) estimula as abordagens e refinamentos não só do aspecto técnico do sistema, mas do seu Kung fu como um todo, alicerçando a transmissão e recepção com os vínculos que vão se estruturando ao longo do tempo de convivência.”

Mesmo frente a estes questionamentos e desafios, sigo motivado juntamente com a minha família marcial do Kung Fu, entendendo que ser educador nos dias de hoje, não só na arte marcial, mas nas escolas, nas salas de aula por aí a fora é ser acima de tudo um referencial, é apontar o caminho, é ser o exemplo, não solucionar problemas e conflitos, mas oferecer condições para que o aluno ou aprendriz vença seus medos, suas frustrações e literalmente aprenda a sobressair em diversas situações, acima de tudo, sendo uma pessoa de bem. Tem dois ditados chineses que concluem exatamente essa lógica. São eles:

“Mestre bom, discípulo bom”.  “Dê um peixe a um homem faminto e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar, e você o estará alimentando pelo resto da vida”.

Então, quer se tornar um campeão? Pratique Kung Fu e supere os seus obstáculos. Marque já a sua aula e vivencie na prática a superação. Venha fazer parte desta família!

 

Instituto D’ali de Arte, Cultura e Esporte

 

Shifu Alcides Uchoa Lima é educador,  pedagogo, artista marcial, professor de kung fu e tai chi chuan, escritor e palestrante.
Escrito por: dalikungfu

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